A Criação de Donn

Nestes tempos, em que vigora uma trégua entre lekhtianos e vustianos em toda Erde Bethakhes, acorreram gentes de todos os cantos do orbe a RokhiDa Genk, em sua longanimidade, proclamou um tempo de Paz, que duraria 12 ciclos de águas. Neste período, todos que quisessem adentrar às escolas do Palácio de Rokhi, poderiam fazê-lo com sinceridade de propósito, que era o de aprender pelo ouvir 

A mim, shperer de Sua Majestade, coube as aulas a serem ministradas aos pequenos alunos ignorantes das aldeias vizinhas. Careciam das letras e da música, mas sobejavam em pureza e sinceridade. Estes eram legítimos súditos do Rei, adotados e protegidos por Sua Majestade, alimentados tanto pelos frutos da Terra como pelo pulso do Coração do Rei. Estavam todas as formas viventes de Erde Bethakhes, direta ou indiretamente, ligados à vida do Rei, como células subalternas do cérebro de um homem.  

No sétimo dia do quarto ciclo de águas, no trigésimo ano do Reinado de Jam Katem, ministrei minha primeira aula àquelas pequenas criaturas. Um tremor quase me paralisou totalmente e minha voz ficou embargada, enquanto me apoiava a um dos pórticos que dão para os Jardins de Kekof, no coração de Rokhi. Aqueles pórticos, pelos quais transitei durante toda a minha curta passagem por essa terra, diante dos quais deitei em sestas intermináveis a especular sobre a cor azul do firmamento, agora me compeliam a provar tudo o que havia apreendido da boca do próprio Rei. Aqueles pórticos como que tomavam fôlego e me exigiam que proferisse aquela aula. Eu devia isso ao Rei e a todas aquelas criaturas para as quais preservei as Origens religiosamente até então. Eu devia isso aos pórticos, eu devia isso a mim, inclusive.   

Diante de 50 pupilos atentos, sentados no chão de mármore, diante dos pórticos, e em linhas de 10 cada uma, comecei a ensinar. Aquela primeira aula versou sobre as Origens. Ou seja: como surgiu o Tempo e o Espaço. Entre tantos ensinamentos, citei o [ShperGonnungens, o Livro das Origens. E por que não fala-se de uma Origem, ao invés das Origens? É o que também saberemos abaixo:

Shper Gonnungens. 

Este é o Livro das Origens, transcrito por mim, Nímen, shperer e testemunha vitalícia de Jam Katem, Da Genk Ay’ Erdes [Rei de toda a Terra]. Nele estão contidos os símbolos transmitidos por herança de sua venerável Mãe, pela memória dos ancestrais que remontam à essência de nossa raça. Tal herança não se transmitiu pela voz ou por escritura, mas pela virtude do sangue e da alma. A mim, fora confiada por Sua Majestade, Jam Katem, durante um êxtase místico em que, guiado por um servo de Mikhail, acedi aos conteúdos dos símbolos que relatam as Origens. Tais segredos estão escritos no corpo e alma do Rei como que por enigmas em língua estranha aos aggilianos e estão gravados nele desde que uma centelha de Donn, que é sua própria essência, habitou no ventre da Rebe Genkici.

 […] 

Havia a Luz, e a Luz é símbolo do Todo. Preenche tudo e tudo é uma Unidade. Na Unidade, não há nada em si que seja diverso de si mesmo. Não há movimento, nem Tempo. Não há matéria de nenhum tipo, mas a Unidade constituiu tudo que conhecemos. Que Fonte misteriosa de Luz é essa, que não cessa de dar origem a todas as Ideias sem mover-se, sem mudar em um dedo a distância de sua face direita à sua face esquerda? Elas são unas, mas não são elas, pois elas não divergem.

 No Absoluto, não há Tempo, pois não há início. O início de algo qualquer deve-se ao surgimento de uma necessidade. Tal necessidade cria um ponto de tensão, o qual, por sua vez, cria movimento através do jogo de forças que necessitam para que sejam exauridas. No Absoluto de Donn não há necessidade, pois o equilíbrio perfeito anula qualquer jogo de forças. Na Unidade, não há forças, mas o repouso íntegro.   

Donn não teve início, mas está eternamente na condição de vir-a-ser. Para Donn, nós não existimos, mas somos partes de um sonho eterno que ganhou Vida enquanto Donn foca sua própria Mente. Eis a Noite de Donn, quando Ele, confronta-se com o paradoxo que é ver-se no espelho, gerar uma imagem sua, exterior à sua mas sem deixar de ser Ele mesmo. Quando a Vida se contemplou a si mesma, amou a si mesma para sempre. Neste Ato de Amor, criou-se incontáveis mundos arrojados a partir das pupilas de Donn. Quando Donn dorme, cria ilusões. Tudo que não é eterno é ilusão, embora o Sonhador possa ser definitivamente real e eterno.  

Donn é o Absoluto? Não, Ele é a Unidade, a primeira manifestação criadora do Universo. Mas a Unidade, curiosamente, surgiu do Nada, assim como o número Um nasce do Zero. Mas, como do Nada pode surgiu algo e,  ainda mais, nosso Criador?”

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