O Despertar da Alma do Rei

Quando eu mesmo era um infante, não entendia como acontecia o despertar da alma de um Rei. Era estranho ouvir meu Senhor, Mikhail, declamar, em versos simbólicos a sequência de atos de uma Alma que ganhava fôlego, quanto menos ainda quando tomava conta de si mesma. Pude eu mesmo, com atenção em êxtase, presenciar esse fenômeno com relação à alma de Jam Katem.

A alma daquele real infante ainda dormia incógnita a si mesma, quando ele começou a abrir seus olhos. Maravilhado, pude notar que a Natureza, em sua totalidade, reagia de acordo com os movimentos do menino. Ou será que era o corpo do menino que manifestava, localmente, os efeitos da Alma do Rei a animar todo o Mundo?

Sim! Tive, então, a impressão de que a alma do Rei é que permeava, com sua essência, a dimensão vital da Natureza de Erde Bethakhes, como uma epifania, não passando aquele frágil corpo de menino de um exíguo ponto de referência. Ele passava horas e dias intermitentes admirando a Natureza que era, intrinsecamente, um reflexo de sua própria Vida. Com ele, ela pulsava. Respirando, ele alimentava a brisa, aquecia o estio e dispersava as sementes. No campo, diante de um trigal, ele via que o alimento daquele imenso planeta, do qual aquele corpo era a miniatura, era semeado por seus pensamentos, suas intempéries e seu abrandamento.

Certo dia, sua Mãe, a Rebe Genkici,  lhe trouxe um globo, montado em madeira e pintado conforme o que vira num sonho que teve, em que sobrevoava Erde Bethakhes. Então, disse ao menino, apontando para o globo: “Podes ver que estás nesse ponto?”. O menino respondeu, depois de coçar o alto da cabeça, indicando o centro do peito: “Não, não estou aí, nesse ponto. É esse mundo que está em mim!”.

Percebia já a estranha e fundamental analogia de formas e conexão que há entre os seres vivos, desde os vermes minúsculos que cavam túneis sobre o chão úmido até os mundos mais distantes que se auto-regulavam. Todos pareciam respirar, reverberando uns nos outros, ecoando subliminarmente suas vidas em uma sinfonia universal, cujas notas ultrapassavam o número das sete que conhecemos.

A maior dificuldade que eu percebi durante aquela fase de desenvolvimento de sua Autoconsciência foi a de conciliar a percepção de Tempo que ele tinha enquanto se reconhecia naquele corpo de cinco pés de altura e a sensação que lhe vinha da passagem do tempo de Vida de Erde Bethakhes. Estranho é, decerto, às outras criaturas que hoje habitam este mundo que algum ser possa sentir a história que extrapola a sua própria. Ele se sentia unido a Erde Betjakhes e ao seu destino, da origem à sua consumação final. Assim, ele se identificava com cada fase da história do mundo, mesmo se vendo apenas como um menino. No entanto, era um menino que viveria até o Fim do mundo. Um menino, na visão dos seres efêmeros da superfície de Erde Bethakhes, como possuindo dias intermináveis de Vida, um ser onipresente dentro de um menino, um Rei e deus imortal.

Na verdade — e isso é algo que poucos entendem —. o Mundo foi feito dele e para ele, para sua manifestação e Reinado. Quando nasceu, de certo modo, era o Mundo que surgia. Seu corpo é apenas um sinal visível da presença real do Rei em seu Reino. Porém, sua alma é, verdadeiramente muito mais que aquele corpo franzino; é a própria Alma do Mundo. A Vida do Mundo reconhece a si mesma como sendo uma emanação da Glória do Rei. Seu Reinado não terá fim antes que finde o mesmo Mundo, após a passagem de milhares de ciclos de águas, gerações de vustianos e lekhtianos a viajarem pelos rincões mais distantes e um sem-número de primaveras, florações, catarses e mortandades. Regis maiestas nunquam perditur. Quem é Rei jamais perde a majestade!

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