O Jardim

Quando o menino Jam Katem, finalmente, abrira seus olhos pela primeira vez, ele se encontrava deitado na relva, num bosque, cheio de árvores frutíferas, que depois viria a ser chamado de Jardim de Kekof. Ainda assim, ele não o via. Via apenas as brumas que tornavam as imagens irreconhecíveis, porém estranhamente familiares. Ele não o reconhecia, ainda que depois, sem o saber nunca, viesse a habitar nele. Em volta dele, se ergueria o Palácio de Rokhi, um castelo fortificado que, em seus tempos de menoridade, era guardado, em espírito, pela Rebe Genkici (13), sua venerável Mãe. Nesta fortaleza, no futuro, reinaria Jam Katem por centenas de ciclos de águas.

Enquanto crescia em Consciência e emanava Vida a todas as regiões de Erde Bethakhes, Jam Katem passava boa parte de seus dias e noites em Kekof. Ali, ele recebia, por via intuitiva, a herança espiritual da Rebe Genkici e os alvitres dos Tseren, que se preparavam para auxiliar no povoamento do Mundo. Alimentava-se dos frutos do Jardim e do “vento” de Rokhi. Ali, seu Ser não sofria, as angústias ainda não se lançavam ao seu pescoço como a tentarem sufocá-lo. No Jardim, ele era o que era. Embora sua Mãe intuísse Hale (14) como seu Nome ideal, foi ali que ele se reconheceu como Jam Katem, aquele que é o que é.

O Jardim fora formado pelo desenvolvimento da Vida nutrida pela Rebe Genkici. Tinha sete estratos de árvores frutíferas, separados por caminhos em espiral, no sentido da mão esquerda. Deveria ser o centro da Vida interior do Rei, lugar de refúgio, meditação e autoconhecimento. Comendo de seus frutos, nada o confundiria nem qualquer decisão sua poderia ser equivocada. O Jardim era o símbolo visível da Realeza de Jam Katem, onde jamais qualquer ser, além do próprio Rei, poderia pisar, nem mesmo os Tseren.

Mas, para reinar sobre o Mundo, ele precisaria sair do Jardim. Não poderia se abster de provar a fome, a miséria e a aflição que sente todo aquele encontra os opostos, as contradições. E ele saiu. Poucas vezes voltaria a ele, e cada vez menos quanto mais povoado fosse o Mundo. O Paraíso de Kekof continuaria ali, mas seria muito mais penoso para o Rei retornar a ele, à medida que o Caminho que a ele conduzia se enchia de matagais e arbustos espinhosos, enquanto os ciclos passavam e seus olhos reais se obliteravam.

***

Notas:

(13) Rebe Genkicitítulo atribuído à Rainha-Mae, lit. “Grande Rainha” , Mãe do Rei. Ou, ainda, “Rainha Maior”.

(14) Halenome próprio e adjetivo. Significa “o Brilhante”.

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